Eu tenho um corpo marcado, maltratado, decepado, participado, infantil e adulto, superassexuado
Pra que? Para saborear prazeres (e algumas ilusões), os odores, os calorzinhos, frescores, toques (abraços, beijos, os mais excitantes e os já há muitos anos investidos), suaves ou ríspidos, ouvir e ouvir e ouvir, talvez o silêncio, ou a brisa, quem sabe um rock pesado, um samba, a música erudita, o pop, até mesmo o funk, o sertanejo, o tradicionalismo, há quem os prefira, os sabores, ah, estes que me elevam a recordações de parentes e amigos ou às muuuito amorosas (algumas tão intensas que se fixaram agridoçamente às memórias, exclusivamente minhas e íntimas).
Íntimo
Mas e se eu me for, pensei nisto por alguns instantes antes da cirurgia de ponte de safena e mamária, faz uns dois anos.
Se eu me for, lembrarei do beijo, não devia, sabes, agora, que o que dei revelou meu íntimo
não sei mais do que os mesmos e sempre minutos ou segundos de todos os outros, até mesmo dos inimigos
o que sei mais do que aquele mínimo segundo em que tivemos algum prazer?
o que sei a não ser as leituras e vivências?
O que sei levarei porque é só no túmulo que segredarei os nossos íntimos
Sombras
Sombras sobrepõe-se
os mortos andam por aqui
comunicam a mudez dos habitantes
sorriem dos múltiplos olhares
e nos veem sofrer nas decisões dos governantes
registram a orações das religiosidades
e assombram com as melodias de sempre
nunca tive mortos por inteiro
nem vivos suficientes para esquecer tudo isto
o amigo partiu e o namoro acabou
eu me vou, mãe
quero os seus abraços e os muitos beijos
pai, eu voltei neste dia desconhecido que se foi
com as nossas canções e os nossos rápidos momentos
Eu queria ter tido mais sensibilidade
queria ter aprendido melhor
encontrar queridos
ter sido melhor para amar
queria poder expressar
e na escola saber bem mais
cantar e dançar
quem sabe este meu querer é tudo o que eu tive
sou aquele que tem saudades de tanto lembrar
O nunca e sempre o primeiro
Nunca, nunca haverá nada igual
àquela infância ou aos amigos que tive
aos pais ou aos professores com quem vivi
às horas que experimentei tudo primeiro
a voz, o beijo, o primeiro orgasmo
nunca haverá um igual
haverá, porém, sempre um primeiro
Eles ou elas
De qual sexo seriam?
um corpo sagrado e desejado
ou as bonecas alvejadas?
Aquelas mulheres que mal se pareciam
ou o mistério de um outro criado
qual o sexo eles ou elas teriam
qual cotidiano os/as desafia?
É cedo demais, eu sei, para sentir
é cedo, eu sei, eu sinto, porém,
percebo o canto do pássaro
o miado de um gato ou a cigarra a emitir um encanto
o latido de um cão
o revoar de um grupo de aves
o som do campo, do parque ou da praça onde ouço todos
nos verões, nos outonos, nos invernos ou nas primaveras
são os tempos que ciclam
e eu os sinto
Viver é estranho
tantas frustrações, incompreensões e muitos, muitíssimos equívocos (e, por vezes, até demais)
e, repentinamente, aparece-nos um(a) querido(a) que reconstrói o perdido
eleva-nos a alma
erige as nossas mensagens como se elas fossem, e apenas elas, mitos
lembro-me do amigo há não mais de um ano falecido
o que diria e o que pensaria?
Impossível pensá-lo como autoria
sou hoje um pouco de todos estes queridos entes bem vividos
E qdo é que serei feliz?
talvez agora com um pet q me faz sentir
talvez nos encontros
talvez por este leve, porém, agradibílisso bem-estar
é estranho ser feliz por pouco
poderia estar em uma linda paisagem
amando às tantas
talvez ser feliz cada vez mais sem
mas vc pertence a estes mínimos capazes de me tornar um novo
Talvez eu não tenha mais tempo
viverei para ti
talvez nem respire mais
transpirarei enquanto aqui
talvez eu não consiga
eu lutarei por ti
Os dias (viver na sequência ou pq eu vivo)
O rosto daquele homem estranho, da mulher q nem cumprimentou
do menino e da menina escolares q acionaram uma campainha, brinquedo divertido
os rostos aparentemente estranhos daquele homem sério, da mulher aborrecida, alguns vizinhos de porta, outros de rua, da confeitaria ou destes dias em que vago por vagar
a moça do caixa que sorri treinada a parecer solícita
dias como os outros repletos de sorrisos e enfrentamentos, de desencontros e de surpresas
são os dias para um mais ou menos ou para um prazer raro de quem descobre um motivo para a vida
A todas
Nunca fui um homem suficiente
tive as melhores oportunidades perdidas
encontrei-me com elas para de repente perceber que
nunca tive a última
todas foram sempre as primeiras
aquele pedaço de corpo
ah, aquela parte (lembro-me tanto, um enorme prazer)
deleitei-me por inteiro
uma coxa ou um púbis
o pedaço de corpo que eu curti me deu o que somente eu quis
um pedaço de prazer para um pedaço de um corpo curtido
É preciso estar acima dos 50 para compreender que a vida de quem amamos é uma liberdade irresistível.
Homens
Há um homem que nasce
um outro que morreu
um homem que morre e um outro que renasceu
um homem com face e um que correu
há um homem e talvez até a gente o veja
aquele que morre e renasce em instantes à frente daquele que morreu
Aos grandes amigos
(aos antigos e aos recentes...)
O que sabemos de anjos?
Seriam aqueles seres alados a interferir em vidas tão ínfimas?
Católicos e por consequência cristãos?
Fadas, duendes, etéreos e sutis a sussurrarem em nosso ouvidos?
Só a experiência divina, porém nada religiosa, de vir a ser salvo por quem torna tudo isto compreensível
nada etéreos, nem asas e nem religiosos
eles habitam nestes labirintos incríveis um tanto estranhos que só a vida sensível nos permite
Ofereci um coração a alguém,
e ela ficou surpresa, ora, imaginem oferecer um coração, era apenas um coraçãozinho, bem pequeninho,
de uma bijuteria, barata, talvez.
Que nada, um coraçãozinho vale mais do que os ímpetos de paixão, embora necessários para entender o coraçãozinho.
Eu espio como um cego
De vez em quando dou uma espiada
eu, a vida, precisamos, disto
enxergar os encostos
os sucessos, os fracassos
espiar porque viver sem perceber (pouco importa se a imagem é visual) é viver sem vista
espiar o amanhã, a próxima hora, ou até os próximos minutos
como o cego que parece nada ver
ele também espia
forma imagens sonoras, táteis, olfativas e gustativas
espia às vezes melhor do que aquele que vê sem perceber
é nesta hora que vem a surpresa e nos dá o famoso golpe de vista
Aos amores
E se fizeram amando
o tempo deu-lhes tudo
outros e outras e até as culpas em labirintos
amaram-se em uma daquelas típicas tardes só para conhecerem os prazeres
e repentinamente vieram todos os demais dias
até que bem depois o tempo lhes estornasse a vantagem de recordarem todos estes encontros
Aprender c o outro não apenas c os conselhos não somente c os diálogos e c as brigas
aprender q amar denuncia q um dia lembrarás disto tudo
Números
Qtos anos para conquistares aquele amor
e os minutos ou até segundos para perdê-lo?
Qtas horas e dias, até meses, para passar aquela dor
qtos minutos ou segundos para a hora tão esperada
a felicidade escorre sim, mas a esqueces muitas vezes
Quantos abraços, beijos e sorrisos desprezastes pelas quantas vezes que querias o que nunca soubestes
Não me interessa o quanto você grita
o quanto és decidido
o quanto mandas
o quanto machucas
o quanto desprezas,
o quanto destróis
o quanto levantas, o quanto proteges, o quanto de músculos apresentas
o quão inteligente, o quão esperto,
o quanto aparentas
homem
um homem emociona-se diante de um inseto morto
ao lembrar de um ou algo tão querido
um homem é a força infinita de amar o minuto mínimo
é uma força ínfima que surpreende todas(os) (os)as amantes
O homem que eu quisser nunca foi um homem verdadeiro
nunca foi um líder, um herói, um conquistador, um símbolo
não foi pai
sim, apoiou, sim, conquistou, sim, plantou
amou e muito
não foi um par
não se armou e a ninguém destituiu
não fez maldades, não marcou saudades
escreveu e escreveu
o homem que eu quisser renasceu todos os dias
nem sempre com coragem
nem sempre íntegro, nem sempre irmão, filho ou amigo
o homem quisser homem e
um dia morrerá porque todos devem morrer como um homem deixando pra trás o mito
Este é um livro com capas de madeira
e não seriam todas?
Não leio nele palavras só veias
não interpreto nada só teias
ignoro os teus vestígios
foste uma árvore talvez em uma selva ou em um pequeno mato
que livro é este a qual ignoro mas sinto tudo?
Até amanhã
Só pra dizer que foi hoje e não ontem em que eu terminei sem futuro
Vamos ficando aos pouquinhos
aqui um sorriso, ali uma tristeza
aqui umas ideias outras vezes um vazio
uns amigos, uns parentes, as vozes daqueles que não vemos há tempos
seus aromas, seus odores, seus conselhos
tudo juntinho e aqui
ficaram os mais afetos
os amores, as certezas
aos pouquinhos vamos como que para desafiar os desatinos
vivemos só para ficarmos mais um pouquinho
Saudades daqueles tempos sem amanhãs
dos dias em que acordávamos com as tolas surpresinhas muito bem ilustradas pelos adultos
ancorava-nos na beleza daquilo em que acreditávamos
sem a noção exata das dores de uma grande perda
acreditávamos, e era só, nas crenças que nos diziam os tios, os pais e os avós
Aos meus queridos peludos
Nenhum poema para eles eu fiz
e estavam sempre aqui encostados e me lambendo, solicitando comida e amparo
perdi-me em eflúvios para só a minha existência
em encontros e nas saudades humanas
Meus queridos, ah, meus queridos
os baixinhos e os gordinhos, os tortinhos, os arrepiados, os abandonados, as mamães e filhotes, as suas dores
as vidas, as simples vidas
os meus queridos poucos e idosos
o gordinho e um outro sempre parecendo jovem
meus peludos, meus grandes amigos
Não é
nunca foi fáci
e nunca será
é sempre o caminho que os menos seguiram
o que eu tenho hoje em mãos talvez seja só a recordação
talvez só a imagem
um imerecido herdeiro eu sou
sem tua força, sem o teu legado
mas o que farei, amigo, será resistir
Não é
nunca foi
e nunca será fácil
Passam todos e a vida é quem me passa
Pela rua em frente à minha casa
passam os lixeiros
e aqueles que vão à padaria
os que passeiam, meninos e meninas que vão e voltam da escola
passam bicicletas e carros
as domésticas, os senhores e os senhoas
os(as) trabalhadores(as)
passam cães e gatos
alguns catadores recolhem latinhas e garrafas pets
passa um cantor, um pedreiro, um pintor, um jardineiro
o carteiro passa e deixa as correspondências
alguns que não são carteiros entregam propagandas
por esta rua em que viveu o Toco
vivem outros cães e gatos
passam ratos, baratas, formigas, caramujos e lagartixas
passam todos e eu me passo porque a rua é pública e todos passam
Gosto das safadas e das desencontradas
de algumas erradas
das paradas e das enroladas
é da mulher quem eu gosto
da mulher danada
O meu lugar, parece, é aqui
parece-me, porém, esquisito
o lugar que eu pensava haver neste mundo
parece
discordar de mim
parece que eu quero e ele me ameaça
às vezes, parece que sou eu quem o ameaço e ele é quem me quer
o meu lugar, talvez,
seja aqui mesmo
por vezes desencontrado com o meu destino
Dona mulher
A dona que por mim passou não tinha corpo
eram curvas
esta que por mim passou era senhora de todas as lutas
eu a conheci menino
e a chamavam de puta
como todas aquelas que nos ensinaram a ter coragem para sermos melhores na cama e na vida
Ah, infame poder oculto
se eu pudesse
eu diria o que está oculto
mas como dizer o que não vemos, cheiramos, degustamos, ouvimos ou tocamos?
Só se eu pudesse...
Exis-tência
meu lugar, talvez, quem saberá, o Papa, o Mestre Budista ou meu Pai de Santo?
Quem sabe qual é senão pelo que fiz e faço
e nem tanto pelo que fizeram por mim
meus pais amaram-se, o que importa o quanto,
estou aqui
ah, meu lugar que sempre procuro estonteadamente em elogios, nos retornos e em lucros
nos amores, nos abraços e nos sorrisos dos encontros
meu lugar eu sempre procuro
e sei que ele só existe por enquanto
Instável
Não tenho um lugar pra ficar, daí porque transito
pelos amores
pelos amigos
pelos trabalhos
alguns encontros
por aqui e por ali
não sei mais se vou ficar
dou-lhe meu adeus
quem sabe um dia...
Limite
Eu queria ter sido um melhor
quem sabe um pai
ou um melhor amigo, um melhor genro
um melhor filho, primo, sobrinho ou tio
um melhor ombro
um melhor amante
um melhor companheiro
um melhor previdente
um melhor cidadão
queria ter amado o suficiente ou até mais
fui eu, porém, que desenhei, os meus limites
Saudades
Às vezes, voltas porque nunca fostes
e voltas tão forte que é o teu cheiro e o afago que eu percebo
volta mais vezes, amor, tenho sede,
porque sei o quanto eu sou com todas estas lembranças
Drogado
Não tenho para o teu o meu
tempo
e o que sei é que eu durmo e acordo, às vezes
Meu tempo é uma droga
e é o tanto que eu preciso de ti
porque estou sem tempo
Só pra amar
Hoje, manhã e depois e depois e depois
Só pra te amar, aos teus e a tua vida
Amar ao máximo e gozar
a vida, o momento, a natureza
amar o gozo, amar e amar
que tal amar?
Que horas são para quem vem depois?
Se os outros pudessem como um domingo ser como os dias de feiras
se pudessem segurar a leveza de alguns pais nas felicidades miúdas e raras com os filhos
se estes fossem o encontro de um avô ou avó, já esquecidos de nossas mãozinhas
se pudessem fixar o único momento de alegria com os primos
com os amigos de infância e hoje os únicos
se fossem todos estes os dias de domingo
teríamos os amores de todos os dias
Eu te queria
não eras linda(o)
não eras magnífica(o)
nada mais eras
por que te querias?
Porque eras linda(o) como um início...
Amei tanto e quis mais, levar a vida leve, mas...
amar é insuficiente sem a seiva que nos alimenta
amei e queria só por amar viver
é que sobreviver, meu amigo, é de longe superar...
Terei um tempo para o ser?
Sim,
para esta alma feliz que me acompanha
Se a solidão desarma a espera
vivo hoje uma guerra
eu preciso excitar os sentidos
Parâmetro justo
Fazer de conta de que as fantasias existem.
Uma sombra (sim, ela está aqui)
paira sobre o que escrevo e penso
recomenda condena e pretende corrigir impedir orientar definir
é uma sombra apenas
que eu afasto a sorrir
Maria
se eu fosse, eu te daria o amor
sou bronco e esquisito, mais, impossível
se eu fosse, um beijo eu daria. Sedento? Talvez!
eu te daria encontros e provocaria desejos
se eu fosse ao teu encontro, amor, por todos os amantes eu te amaria
Qdo doi no coração a alma foge
desespero é assim, desalma
Ando torto e safado pelas ruas de uma cidade que até parece alegre, mas suspira dores de um orgulho sabe-se lá de onde
Eu tenho medo de um lugar de onde eu possa ver o que fui
e me perder aqui neste apenas meu e somente meu horizonte
eu me subtrai pelos corações das amantes
e de tanto arfar, me afoguei
pulsar demais dá nisto
não passo de um um reles alguém
por isso me aninho em multidões
um conforto para quem apenas quer viver despercebido
um terço rezado inteiro alivia e elimina os pecados
um terço de pecados eu tenho
nos dias em que tento
produzo aberrações,
ah, queridos poetas, desculpem-me, apenas escrevo,
talvez pelas aberrações,
talvez por apelações
Pelo único e pelo todo
pela borda e pelo miolo
eu gosto
do gosto
do gozo
de você
eu gozo
e gosto
de teu gozo
sobreposto ao meu
Nem sei qual o limite,
eu amava simplesmente,
e você, em delírios, recuperava-se
em busca de outros delírios
mergulhamos,
ao amar simplesmente…
Ainda não sei o que, vivo ainda
não sei se com tempo
ainda não sei
apenas eu tenho
Moro perto de um lugar estranho, sempre morei, porque as ideias que pensava tão certas se dispersam.
Desapego
Deixar um filho ir para um onde é amar o amanhã.
Beijo (sexo oral)
eu só te quero a boca
Olhamos pelo alto e por baixo
gordos ou magros, julgamos o quantos os outros são
pensamos altivamente e obesos
decidimos, quando não, como miseráveis
porém continuamos a julgar pelo alto e pelo baixo
como gordos e magros,
como tolos e fracos
Nós
admitimos demais o que dizem ser bonito
e demais o que é indigno
parecer é mais do que ser
convicções ofendem
Coti diano
Uma prisão de sentidos faz-me palavrear
e minto,
todos os dias eu minto
o bom-mocismo assim prevalece sob a gravata e nas ordens dos dias,
perfil adequado, meu bem,
avesso-me todos os dias
Travesti
Correu desesperada, tinha um corpo duplo e as vergonhas alheias
o que escrevera afinal, senão desejos e somente desejos?
Recalque
O que você faz com a vergonha escondida?
engole
até que um dia ela ejacule em dor ou ira
Tento me desprender
diariamente, juro, eu queria
mas um instinto me segura
e volto à rotina
desencarnar é difícil
E de tanto me olhar, copiar, observar, e até me torturar,
afinal,
o que legas é o meu rastro
tua obsessão fez-me história
Nunca fui tão distante
porque de casa eu via tudo
nunca andei de qualquer jeito senão embriagado
e amei tanto e até sozinho
amar é ver tudo
se a gente pudesse, o tempo parava
e até retrocedia
crianças, jovens, idosos, animais, todos
se a gente pudesse, que loucura
mas quem pode o tempo ter?
Se a gente pudesse, maquinações e fantasias
talvez um só átimo do tempo
mas é o espaço que o consome e o torna a perder
Nada de um porquê
do querer, nada
só a face imediata deste instante
Para descobrir você fiz
palavras
uma audição
uns desenhos
fiz ideias
e nunca a encontrei
Se você puder, deixe
se puder, silencie
se você puder,
desapareça
só isto e nada mais...
Sensações esquisitas
Uma luz fermenta
uma sombra mergulha
um facho corta
uma cor arrepia
Brincolagem (silabando)
Ine bri ado,
iiiii
nego
ciável
i nes pe rado,
porém
ines go
tável
anes
te siado,
porém
amasiado
Copie-me, sim, e repita e repita, copie-me
desautoriza-me, desagredita-me, copie-me.
O tanto quanto o fizeres certamente comprovará o tanto de minha excelência!
Razão última
Sobrevivi, porque devo ou será porque temo?
Por que eu, então, já que tantos se foram?
Porque eu, já que os vivi ao extremo?
Os mais e os menos loucos, os tolos, os espertos
os mais e os menos belos
os mínimos, os máximos
Por que eu?
Se nem tanto, nem mínimo?
Talvez porque somente eu seja um mais ou menos.
Violência
Medo eu tenho é da truculência
não a que me traz quebraduras, cortes na carne e hematomas,
medo eu tenho é da truculência que a tudo isto legitima,
que despreza a pobreza, a morte de animais indefesos e faz pouco caso da sensibilidade infantil
Tenho medo mesmo é desta incapacidade de amar e que diariamente se alimenta do próprio sêmen
Flagrante
Que a surpresa já não me chegue tão rápida,
boa ou ruim, que venha,
que me surpreenda, porém, sem armas.
**********
Sutil aspereza, sutileza
************
A primeira e eterna vez
Pelo susto e pela incógnita e o meu corpo querendo,
de repente, de menino virei homem,
que grata lembrança viver a expectativa de um menino.
Recorro a mim para resgatar o seu
entre memórias, recorro
as tuas,
as minhas,
as nossas,
que ali e acolá estão comprimidas.
Ingênuo menino (impedimento para crescer)
Desacordei-me pra te ver, criatura, oh, criatura.
E nas vivências de menino, pensava: haveria alguma ciência?
Que nada, menino, apenas alquimias...
Naufragar em poemas é singrar em sentimentos
naufragar em sentimentos é mergulhar em poesias.
A put-aria,
caput-aria
termos lindos de uma mesma baix-aria
Que coisa, deus
Não me faça tu, oh deus
de tudo o que tenho um pecado
por que, deus, serei eu teu emissário?
Rendo-me à voz do poema louco
Sexos
estabelecer o feminino à margem do masculino
inverte o que só e somente assim lhe parece
o que há de tanto para o ser que há no masculino?
o que há de tanto para o ser que há no feminino?
Aniversário
É de se estranhar o que acontece nos aniversários
o que era nem parece com que é hoje
e nem parece que o hoje já o era
estar por aqui parece estranho
até mesmo tolo
teria sido ontem ou hoje, quem sabe?
Uma boa sacada, apenas viver com outréns.
Às vezes o MEDO é um MEDO tão GRANDE
que me parece apenas uma covarde ameaça
pronta para se dissipar
Tipegando
tôtiachando ti chegando tiamando
Adeus ingenuidade
perversando
é tudo o que você fez pensando,
você fez, não se engane, você fez de tudo
Tá se indo, mamãe? E eu que aqui fico?
Dos anos que te levam nenhum é perdido,
vai-se e leva a justa jornada
vai que eu fico
um dia hei de partir contigo
Passando por esta estrada
tô ti vendo,
parece até que ti quero mais ti vendo
do que pelo que tintendo
Pra que, afinal tintender?
Volto à estrada
Liberdade
Havia um medo,
um medo louco a me perseguir
de um nada
de um outro
de um olhar ou de uma palavra
medo de até mesmo ser
era medo
apenas medo de vocês
até que então um dia me descobri
Eu te descrevi, vida
como a coisa das coisas que pouco sei
como a coisa das coisas que eu pouco entendi
te descrevi porque sou eu a própria coisa criada por ti.
Se a distância me trava, me embriago de imaginações...
O feio é um desassistido,
o feio é um desprevenido,
o feio tá feio porque tá ferido
Se pudesse,
parava o belo
só para que fazê-lo compreender o quão importante
lhe é o suficientemente feio
Programa
quanto custa, pergunta o menino
responde a moça um tanto estranha e bonita
todos os minutos da tua vida
Uva
Talvez a lua não seja
tão linda
como a tua uva
Implacável
Os dias que se apresentam como horas, te enganam
seja esperto
antes que só uma destas horas te vire em dias
Significado
estar por estas frestas de tempo
por estas vielas de vida
estar aqui descansado,
de que vale, afinal, estar entre
quero mesmo é estar pleno
Rejeição
Dei-lhe uma gota para nascer o amor
foi-se a esperança, você não brotou
Artimanha
Não te limite pelo olhar alheio,
remonte as tuas e somente tuas estratégias
para o golpe final do desejo
Samsara
Tô morrendo aos pouquinhos
graças aos míseros pensamentos
Poema da declaração
Quando a vi a primeira,
não me apaixonei
pela segunda, lembrei,
pela terceira vez, não havia mais lembrança
Centenas foram
algumas com e por você
muitas tão tolas sem você
Ah, vezes, nunca excessivas
algumas raras e lindas
só vezes não foram, certeza
Poema do Adeus
Não, não é comum o amor que doei
nem amei o que há de mais comum entre as dores
e deste ardor doado um beijo na boca molha apenas um adeus selado
Haikai
meu teu
teu corpo meu
sem medo teu
Insônia
Quantos?
Dias,
horas,
recursos sempre
tudo atormenta
Prumo
é nada todo mundo
é menos sem você
Dor
E se for do nascimento
e não da morte a dor sentida?
e se oportuna é aquela que diante se afirma?
comsumo
seutipudesseuticumia
nãopossoteucorpomiconsome
Só isto
O que estava para aprender está dado
o que mais a fazer
vai pro outro lado
Filhos
Todos somos filhos
muito mais vezes filhos somos do que alguém
Prazer
Gosto do prazer que nos outros a gente sente
Paz aos fantasmas (pensamento)
Por que os fantasmas habitam e assombram as casas desabitadas ou abandonadas?
Para usufruirem a tranquilidade rara e distante das televisões, gritarias e confusões das famílias.
Ninas
Que saudade que tenho da namoramada que nunca tive
mulher ou menina, não sei
é da namorada a saudade que sinto
é de novo 'ma ingênua vista
quão bela fazes a materia bruta
quem dera me salve desta miséria absurda
Já não é saudade o que agora sinto
nem é nina a mulher que hoje eu tive
matéria e miséria, uma bruta
a namoramada que hoje eu tive
Que tens senão as belas mãos de quem admira?
Que mais do que o insidioso olhar que aos outros mira?
Que fascínio traz bela e augusta figura